Segue o artigo do professor Elísio Estanque que participou na semana passada do GPC em conjunto com o programa de mestrado em ciências sociais da UEPG.
O “precariado” e a nova luta de classes
Elísio
Estanque
Sociólogo, investigador do
Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra
Parece evidente que as recentes
transformações em curso no mercado de trabalho estão a redesenhar as formas
tradicionais do conflito social e das relações entre classes. O velho
operariado desagregou-se e entrou em implosão. A chamada “classe média” vive deprimida,
endividada e a caminho do empobrecimento. E nesse processo de recomposição
emergem novas camadas de trabalhadores, entaladas entre o desemprego crescente
e as novas formas de trabalho precário, incerto e mal pago. Serão estes
segmentos da força de trabalho qualificada, instável e precarizada os
porta-vozes de novos sujeitos da conflitualidade? Estaremos a assistir na
Europa e no mundo a uma nova recomposição da luta de classes?
O recente livro Precariat (de Guy Standing) constitui
uma análise muito instigante sobre o assunto. As atuais modalidade de
trabalho precário e sem direitos agregam conjuntos muito diversos e dispersos
de grupos sociolaborais, marcados por recursos e subjetividades muito distintos
e incertos. O rumo que perseguem está por definir, mas algo de novo está
ocorrendo. Olhando, hoje, o edifício da estratificação social pode dizer-se que
este “precariado” reune pessoas com trajetorias muito diferenciadas, desde as
camadas em declínio da classe média assalariada a frações do velho operariado,
grupos excluídos, desempregados, minorias migrantes e novos segmentos juvenis
da força de trabalho qualificada e precária.
Como é reconhecido por muitos observadores, o quadro social a que nos
habituámos na segunda metade do século XX perdeu sentido. Desfez-se no ar o
modelo com que sonhou a social-democracia europeia: a ideia de uma elite
competente e qualificada que geria por mérito próprio os destinos das
instituições, da economia e da sociedade, seguida por uma “classe média” zelosa
que lhe servia de exemplo e principal sustentáculo e, na base da pirâmide, uma
classe trabalhadora dialogante (através dos seus sindicatos), beneficiando de
políticas sociais “bondosas” e com expetativas de ascensão social. O que vem a
seguir não se sabe.
Apagou-se a miragem de um sistema
meritocrático e de uma sociedade atomizada e consumista. No seu lugar ganha
nova evidência a realidade da luta de classes. Uma luta de classes que embora
não sendo dicotómica todos os dias nos revela a crueza dos interesses antagónicos.
Uma “sobreclasse” global que multiplica tanto mais a sua riqueza quanto mais
estreita for a camada dos mais ricos dos ricos. A extração de mais-valia deixou
de ocorrer através do trabalho excedente do operário fabril para ocorrer à
velocidade cibernáutica em que opera o capitalismo financeiro, usando
e multiplicando o dinheiro, juros, ações e capitais circulantes (a custas do
anómimo depositante) como principal lubrificante do seu enriquecimento
supersónico.
Enquanto isso, uma parte cada vez
mais volumosa da antiga classe média e seus descendentes mergulha no novo
precariado. Este, não corresponde ainda a um novo sujeito coletivo, visto que é composto,
sobretudo, por camadas dececionadas e vulneráveis, unidas pelo sentimento de
indignação e raiva contra o status quo
e os políticos incompetentes ou corruptos que alimentam o capitalismo global.
Uma parte destes descontentes poderá alimentar revoltas sem horizonte ou servir
de alimento a manipulações populistas e à demagogia do discurso neo-fascista
(como de resto já está a acontecer), mas está em aberto o seu potencial
emancipatório.
As lutas defensivas e
materialistas protagonizadas pelo velho sindicalismo do operariado em declínio
encontram-se esgotadas, muito embora o contributo dos seus quadros mais críticos
possa ser importante se souberem interpretar – e incentivar, em vez de segregar
– os novos movimentos sociais e a luta do precariado. Essa luta é, em primeiro
lugar, pelo reconhecimento (por uma
nova identidade coletiva), em segundo lugar, pela representação (novas estruturas
associativas para além dos partidos, se bem que não necessariamente contra
eles), e, em terceiro lugar, pelo direito
ao futuro. Se os movimentos “pós-materialistas” deram a primazia à cultura, ao
ambiente e à igualdade de género o novo precariado poderá ganhar consciencia de
si se souber reunir as bandeiras culturais, ambientalistas e identitárias com
as lutas materiais pelo emprego e pelo direito ao futuro. Um futuro onde a
segurança económica seja sinónimo de autonomia (no uso do tempo e do lazer),
criatividade e qualidade de vida (na defesa do património e da ecologia),
partilhada nas comunidades locais e recorrendo à democracia participativa (e à
economia solidária).
Ao contrário do velho
proletariado, a luta de classes de hoje não visa nenhuma revolução redentora nem se opõe
à “democracia burguesa”. Antes procura ampliá-la e reformá-la radicalmente,
rompendo com um paradigma económico esgotado (o neoliberalismo) e abrindo
caminho a um projeto europeu, federalista e profunbdamente democrático, que dê
sequência aos velhos valores progressistas e devolva a esperança às novas
gerações.
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